ANÁLISE LINGUÍSTICA: afinal, a que se refere? - Resenha

Autores

  • Mariana Rodrigues ATHAYDE
  • Neusa Inês PHILIPPSEN

DOI:

https://doi.org/10.30681/relva.v3i1.1467

Resumo

BEZERRA, Maria Auxiliadora; REINALDO, Maria Augusta. Análise linguística: afinal a que se refere? São Paulo: Cortez, 2013, volume 3.

 

O livro “Análise linguística: afinal, a que se refere?” é apresentado para fornecer sua contribuição para o cumprimento da árdua tarefa de abordar diferentes concepções envolvidas no emprego da palavra “análise linguística”. O livro é o volume três da coleção “Leituras Introdutórias em Linguagem” que é destinada a alunos e professores de Letras, Linguística, Educação, Design, Sociologia, Psicologia e demais interessados em estudos linguísticos. A obra que contém 95 páginas apresenta um retrospecto do termo, associado a sua origem ao próprio estabelecimento da Linguística como ciência. Apresenta perspectivas distintas de trabalho com a língua materna. É de autoria de Maria Auxiliadora Bezerra, professora na Universidade Federal de Campina Grande onde atua na graduação em Letras, que inicia sua trajetória acadêmica sendo graduada em Letras pela Universidade Federal da Paraíba em 1973, possui título de mestrado em Etudes Romanes, pela Université de Toulouse Le Mirail e doutorado em Etudes Romanes, ênfase em Sociolinguística e Dialetologia Românicas, pela mesma Université de Toulouse Le Mirail e Maria Augusta G. M. Reinaldo professora associada na Universidade Federal de Campina Grande, doutora em Linguística pela Universidade Federal de Pernambuco, desenvolve pesquisas na área de linguística aplicada direcionadas para o ensino e aprendizagem de língua materna e para a formação do professor; o percurso profissional de ambas nos mostram amplas experiências na área tratada neste livro.

Introduzem o objetivo de apresentar em três capítulos, a análise linguística do ponto de vista teórico e prático em sala de aula de língua materna, como eixo de ensino, a fim de proporcionar aos leitores suporte a uma aplicação prática.

No capítulo 1, intitulado “Análise linguística: questões teóricas”, as autoras descrevem, de modo panorâmico, como tem se dado a influência das diferentes visões sobre os estudos linguísticos, apresentam os contextos sócio-históricos em que esses estudos surgem com a utilização do método comparativo, com o intuito de se reconstituir a história das línguas e de identificar sua origem. Como ponto de partida, apresentam o século XIX, ressaltam que esta escolha deve-se ao fato de que neste século as investigações já tinham caráter científico, visto que apresentava ainda o desencadeamento das duas vertentes, surgidas no século XX, “estruturalistas (que descreviam o sistema linguístico e seus componentes formais) e gerativistas (que concebiam a geração de estruturas da língua a partir de regras inatas) e as ciências humanas que favoreceram abordagens teóricas, ao associar a língua a aspectos cognitivos, sociais, culturais, pragmáticos e ideológicos, uma vez que as unidades de estudo em destaque eram fonema, morfema e sintagma, para as vertentes estruturalistas e gerativistas, e palavra, frase, texto e discurso para as demais tendências” (p. 20). Em continuidade, as autoras abordam o contexto do século XXI, as vertentes do século XX permanecem e se especificam e com o surgimento dos sistemas de computação e a tecnologia há o aparecimento de novos objetos de estudo, por exemplo, linguagem multimodal e textos/ gêneros digitais, estes só foram apontados no livro, sem uma descrição. Nesta época, “as unidades da língua em destaque são palavra, frase, texto e discurso, acrescidas de outros sistemas semióticos” (p. 20).

Segundo as autoras, a primeira prática de análise linguística descreve as unidades da língua a partir de pontos de vista diferentes e, consequentemente, elege aquelas que passam a ser objeto de estudo. Retomam as vertentes estruturalistas segundo a visão de Todorov e Ducrot (1977) e ressaltam que “todos têm a preocupação de, considerando a língua como sistema, estudar suas formas” (p. 21). Ilustram essa preocupação com exemplos extraídos de livros publicados, a partir dos anos 70 (século XX), que apresentam a expressão análise linguística, sendo eles: Análise Linguística (LOBATO et al., 1975); Bases de análise linguística (DUBOIS-CHARLIER e LEEMAN, 1977); Iniciação à análise linguística (RIEGEL, 1981); Análise sintática (LEMLE, 1984); Perspectiva funcional da frase portuguesa (ILARI, 1986); O modelo das motivações competidoras no domínio funcional da negação (FURTADO DA CUNHA, 2001); Modelos de análise linguística (GIL, CARDOSO e CONDÉ, 2009), sustentando, portanto, a afirmação das autoras que “análise linguística é uma expressão ‘guarda-chuva’ que abriga tantas especificações quantas forem as orientações teóricas que a fundamentem” (p. 31).

Terminam o capítulo resumindo que entre as décadas de 70 e 80 registra-se uma tendência a análises menores da língua e entre as décadas de 80 e 90, surge uma tendência ao estudo do componente linguístico do texto (com ênfase em coesão e coerência) e, a partir dos anos 90 à atualidade, quando há interesse pelo componente linguístico do texto, ele associa-se ao gênero e sua materialização.

No capítulo 2, a análise linguística é tratada sob a ótica do ensino da língua, em que apresenta o advento dos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN (BRASIL, 1997 e 1998), que sugere o ensino da língua pautado na língua falada, na leitura, na escrita e na análise linguística como eixos norteadores das atividades didáticas. A partir daí, a expressão “análise linguística” é localizada em diversas produções acadêmicas dirigidas aos professores de educação básica, sempre remetendo a conceitos variados, porém instituída como eixo de ensino, as autoras focam que não foi abordada na mesma proporção que os eixos de leitura e escrita. Verifica-se o estudo do componente linguístico à luz da norma e/ou da descrição estrutural, sem estabelecer uma relação com o plano textual-enunciativo. Por essa razão, este capítulo se divide em dois tópicos: propostas de práticas de análise linguística e sua aplicação, oriundas da academia, e propostas de ensino de análise linguística em livros didáticos de Língua Portuguesa.

Em “Propostas de análise linguística vindas da academia” esclarece-se que estudar as práticas de análise linguísticas exige-se a necessidade de compreender a expressão e seu surgimento na literatura especializada, tal qual foi brevemente apresentado no capítulo 1.

A prática da análise linguística como eixo de ensino se volta para a descrição, embora em caráter didático. Sendo introduzida em 1980, tem suas raízes teóricas nas reflexões sobre a historicidade da linguagem e sobre o trabalho linguístico, efetivado por Franchi (1977), conforme nos apresenta as autoras. Com base nos pressupostos teóricos de Franchi (op. cit.) e Geraldi (1993, p. 16) explicam que foi extinta a univocidade e a indeterminação absoluta da linguagem que passa a ter como atividade constitutiva e que no trabalho do sujeito mediado pela linguagem distinguem-se três tipos de ações: ações que os sujeitos fazem com a linguagem, ações que fazem sobre a linguagem e ações da linguagem.

Para apresentar aos leitores a distinção das ações da linguagem, sobre a ótica de alguns teóricos, citam: atividades linguísticas (HILGERT, 1989; MARCUSCHI, 1992) atividades epilinguísticas (BARROS, 1990) atividades metalinguísticas (ALVES, 2005), aplicando esses três tipos de atividades à discussão sobre o ensino da relação entre criatividade e gramática. Franchi (1987) vê a atividade linguística como o exercício pleno da própria linguagem por estar presente no cotidiano da comunidade, a prática dessa atividade na escola em interações diversificadas conduz o discente a ampliar os recursos expressivos da fala e da escrita e a operar sobre a própria linguagem, surgindo, portanto, as atividades epilinguísticas e metalinguísticas.

Citam Geraldi (1984 e 1993), pois, ele propõe ao lado de práticas de leitura e produção a prática de análise linguística, e sugere a focalização de um problema de cada vez para ser reescrito pelo aprendiz com a ajuda do professor, elegendo o texto como unidade de ensino nas aulas de língua, com o objetivo de conduzir o aluno a entender o que lê e de escrever textos significativos.

Apresentam-se exemplos de mudança de focos, orientada por perspectivas teóricas diversas, como em O texto na sala de aula (GERALDI, 1984) Portos de passagem (GERALDI, 1993); Perspectivas para o trabalho com análise linguística na escola (NOBREGA, 2000); Concepções de linguagem, teorias subjacentes e ensino de Língua Portuguesa (PERFEITO, 2005); Enunciação e ensino: a prática de análise linguística na sala de aula a favor do desenvolvimento da competência discursiva (KUHN e FLORES, 2008); Enunciação, texto, gramática, e ensino da língua materna (MELLO e FLORES, 2009); Perspectivas para o trabalho com análise linguística (ANGELO e LOREGIAN-PENKAL, 2010); Análise linguística nos gêneros textuais (WACHOWICZ, 2010), assim os professores da educação básica, a partir de sua formação inicial ou continuada, podem fundamentar-se no trabalho apresentado pelos pesquisadores e elaborar suas próprias atividades.

O segundo tópico: “Propostas de ensino de análise linguística em livros didáticos de Língua Portuguesa” apresenta uma pesquisa realizada no período de 2000 a 2010, quando se constata que a expressão análise linguística não é recorrente em livros didáticos, e encontram-se três tendências relacionadas ao estudo das unidades da língua, que são elas: Conservadora, que enfatiza os conhecimentos propostos pela gramática tradicional em seus aspectos descritivos e prescritivos, em que o texto se apresenta como pretexto para estudar o tópico previamente selecionado. Conciliadora, que apresenta denominações para o estudo da língua que refletem influências teóricas oriundas da linguística e da tradução gramatical e Inovadora, que adota denominações para o estudo da língua inspiradas nas contribuições da linguística e se caracteriza pela não sistematização de temas e atividades a eles relacionadas.

O capítulo finaliza com a concepção de análise linguística proposta e divulgada na academia, em relação ao ensino de Língua Portuguesa é a de que ela corresponde a um conjunto de atividades epilinguísticas e metalinguísticas e através do processo de didatização “essa concepção de análise linguística, chega aos livros ancorada ora na tradição gramatical, ora em teorias linguísticas, ora na amálgama dessas duas orientações” (p. 61), mesmo não figurando no livro do aluno, como nos é apresentado neste capítulo.

O capítulo 3 intitulado “Análise linguística na sala de aula” apresenta que o posicionamento da aproximação da língua materna a linguística nem sempre coaduna com uma prática condizente. As autoras ressaltam que há iniciativas, de ambos os lados (academia e sala de aula), que buscam diminuir o distanciamento entre a pesquisa e a prática de sala de aula. O objetivo do capítulo é contribuir para o trabalho de análise linguística na sala de aula, sugerindo “como se pode operacionalizar a didatização de conhecimentos teóricos sobre análise linguística, sem, contudo, pretendendo-se tomar essa forma o vade mecum do professor de Língua Portuguesa” (p. 64).

Parte-se do gênero textual para chegar às unidades linguísticas, posto que considera a língua como ação entre seus usuários, conforme as autoras expuseram em um livro no ano de 2012, intitulado “Conceitos de análise linguística associados a teorias de gênero”, que apresenta conjunto de teorias que aborda os gêneros textuais e constitui um contínuo que apresenta distinção quanto aos conceitos de gênero e suas implicações para análise e ensino. Neste capítulo, contudo, se detém no centro desse contínuo, nos estudos de Bronkart (1999 e 2008) e Adam (2011). Apresentam-se estudos de ensino do francês, mas adaptáveis aos trabalhos com Língua Portuguesa. Esses, por sua vez, consideram o gênero do texto como formato de ações comunicativas globais (COUTINHO, 2007) e defendem a ideia que para a produção de um texto, são necessárias representações de uma situação social. (BRONCKART, 1999 e 2008). Nesta perspectiva, os estudiosos propõem um modelo para o ensino de gênero (DOLZ, NOVERRAZ e SCHNEUWLY, 2004): as sequências didáticas.

São apresentados os níveis de análise propostos por Adam (2011), associando três estratos do folhado textual (BRONCKART, 1999): sequencial-composicional (refere-se à organização linear do texto, compondo as sequências textuais), semântico (corresponde às vozes do texto, conteúdo referencial do texto), enunciativo (aos atos de discursos e sua relação com a orientação argumentativa).

O livro expõe cada um destes pontos detalhadamente e com exemplos explicativos, com destaque em gêneros do dia a dia e exercícios para que haja maior compreensão da análise linguística e aponta que o professor pode recorrer a Linguística, sem desprezar a terminologia da gramática tradicional, se é de seu interesse e há necessidade do aluno aprender.

Para fechar a obra, as autoras apontam duas perspectivas com relação a leituras de análise linguística. A primeira refere-se ao ato de descrever aspectos da língua, que se desenvolvem com base em estudos descritivos de diversas tendências teóricas e que constituem o fazer inerente a todo teórico da linguagem. A segunda perspectiva refere-se também a descrição de aspectos da língua, mas associados ao ensino/aprendizagem.

Verifica-se o “interesse em contemplar a reflexão implicada na prática de análise linguística, mas o encaminhamento dado ao estudo tem como norte levar o aluno a se apropriar dos conhecimentos da gramática tradicional” (p.84).

Finaliza-se com uma problematização, ao salientarem que existe “uma lacuna na formação do professor de língua, a qual carece de pesquisas que explorem a desarticulação entre objeto de estudo e objeto de ensino” (p. 84). E, talvez, por este motivo intitulado “Desdobramentos do tema” apresentam reflexões teórico-metodológicas a respeito da prática de análise linguística como eixo de ensino de Língua Portuguesa.

No que tange a obra em sua totalidade, é um livro encontrado facilmente para compra em livrarias, portanto de fácil acesso, leitura simples e didatizada, apresenta diversas indicações de teóricos e, ao mesmo tempo, consegue suprir as necessidades do leitor com relação às definições. A leitura do livro evidencia aspectos da análise linguística que são pouco tratados sob a ótica da teoria à prática concreta. Excelente escolha para quem está iniciando na licenciatura ou no processo conceitual de análise linguística e, ao mesmo tempo, precisa experimentar vivências de aplicação prática articulas à teoria.

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Publicado

05/10/2016

Como Citar

ATHAYDE, M. R., & PHILIPPSEN, N. I. (2016). ANÁLISE LINGUÍSTICA: afinal, a que se refere? - Resenha. Revista De Educação Do Vale Do Arinos - RELVA, 3(1). https://doi.org/10.30681/relva.v3i1.1467

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