Apresentação do Dossiê Temático: Dimensões da Formação de Professores Impactadas pela atual Ordem Democrática

Autores

  • Ângela Rita Christofolo de MELLO Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT

DOI:

https://doi.org/10.30681/relva.v9i1.6435

Palavras-chave:

Formação de Professores, Conceitos e concepções, Prática da reflexibilidade, Autonomia pedagógica

Resumo

O Programa de Pós-graduação em Educação (PPGEdu) da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), campus de Cáceres, oferta no curso de Mestrado em Educação, disciplinas consideradas obrigatórias e tópicos especiais. A disciplina Formação de Professores: concepções e práticas é uma das que compõem os tópicos especiais. Esta disciplina tem como objetivo, trabalhar as especificidades da formação inicial e continuada de professores, requeridas na hodiernidade. Desta feita, aborda conhecimentos teóricos, metodológicos e práticos com vistas a permitir ao mestre em Educação atuar no contexto educacional da Educação Básico e/ou Superior.  De acordo com a sua ementa, incluem-se nas discussões:

 

"[...] questões da relação teoria-prática, ensino-pesquisa, formação inicial e continuada. Enfatiza os paradigmas presentes nos cursos de formação de professores, compreendendo os pressupostos que os sustentam na constituição do docente e da sua profissionalização, bem como as possibilidades de sua reconstrução crítica. Estuda os processos de elaboração, proposição e efetivação de políticas relacionadas à educação em geral e à formação de professores em sua relação com a sociedade e os movimentos organizados". (Disponível em: http://portal.unemat.br/index.php?pg=site&i=educacao &m=disciplinas-subjects-asignaturas. Acesso em: 11 maio 2022).

 

Observamos então, que a sua intencionalidade se associa à construção dos conhecimentos necessários para a atuação docente. Com isso, defendemos a importância desta disciplina para todos àqueles que são ou que serão professores.  Compreendemos que a identidade profissional do professor é gradativamente construída e reconstruída. À medida que o professor inicia a sua atuação e se insere no processo de formação continuada e de qualificação profissional, amplia os conhecimentos que lhe possibilitam adotar uma postura reflexiva. Por sua vez, essa postura, aos poucos, vai desalienando-o das amarras ideológicas que geralmente estão presentes nos currículos escolares e, de certa forma, lhe induzirá para uma atuação pouco mais autônoma em sala de aula.

Assim, ao trabalharmos esta disciplina, debatemos conceitos e concepções que esperamos, contribuam para a construção do perfil do educador do século XXI, que necessariamente exige dinamismo e disposição para pesquisar e refletir com vistas a uma insistente práxis docente transformadora.

Enquanto professora permanente do PPGEdu da UNEMAT, Câmpus de Cáceres/MT, trabalhamos a disciplina Formação de Professores: concepções e práticas no segundo semestre dos anos de 2019, 2020 e 2021, com o objetivo de possibilitar aos mestrandos em educação, aprofundamento teórico, conceitual e metodológico inerentes ao exercício da docência, com destaque a necessidade da formação continuada e da postura prático-reflexiva e autônoma em defesa de uma educação pesquisadora e transformadora.  Para tanto, pontuamos os objetivos específicos de: estudar   a   conjuntura educacional com vistas a compreender os pressupostos que poderão constituir a identidade docente, bem como a  relação  teoria-prática  na  perspectiva  de  compreender  a  necessidade  da  fundamentação teórica como condição para sustentar a atuação docente ou a prática pedagógica autônoma; reconhecer a necessidade de adotar em sua atuação docente postura crítico-reflexiva   que   articule   o processo   de   aprendizagem   à   pesquisa.

Desta feita, a oferta da disciplina de sessenta horas aulas geralmente é dividida em três unidades de vinte horas. Na Unidade I: A formação inicial e continuada de professores e a constituição do conhecimento docente debatemos vários artigos e teve como referências básicas:  Garcia (1999); Giroux(1997); Imbernón  (2001); Nóvoa  (1995);  e Tardiff (2002). Na Unidade II, cujo tema estudado foi A prática da reflexibilidade, balizada em autores como: Alarcão (2005 e 2007); Pimenta (2005); Schön (1983); e Zeichner (1993), além de artigos que fundamentaram as discussões. Na Unidade III com o tema A autonomia pedagógica, a partir das referências básicas de Contreras (2002) e Freire (2011, 2010, 2014), discutimos vários artigos que versaram sobre o tema em questão.

Desse modo, a metodologia adotada constituiu-se de estudos de livros com as referências básicas e artigos publicados em revistas que elucidaram debates voltadas à formação inicial e continuada de professores em uma perspectiva identitária, reflexiva, crítica e autônoma. Em defesa de uma práxis docente transformadora, emancipadora e libertadora. Com aulas expositivas, interativas e dialogadas, seminários com equipes de apresentadores e debatedores, exibições de filmes e vídeos, rodas de conversas, trabalho em equipes com leituras, fichamentos e planejamentos de apresentações e debates, avaliação oral e escrita que incluiu a co-avaliação e autoavaliação das atividades trabalhadas no decorrer da disciplina.  Como trabalho final, acordamos a elaboração de artigos individuais e em coautorias com orientadores ou professores que trabalharam outras disciplinas ou com colegas de turma, com temas relacionados à educação.

Neste sentido, compuseram este dossiê seis textos, destes, quatro foram escritos em coautorias com orientadora, professora de outra disciplina e colegas de turma. Dois são resultados de trabalhos individuais. Assim, publicizamos um dossiê com diferentes combinações autorais e com temas interdisciplinares, relacionados à educação e as implicações que ela sofre diante da atual ordem econômica, que afetam a formação inicial e continuada de professores e impactam na qualidade social da educação ofertada, principalmente nas instituições públicas.

Ana de Arruda Pinheiro, escreveu o texto denominado Uma reflexão sobre a importância da formação continuada para os professores da Educação Básica, com o objetivo de refletir sobre a importância desta formação na vida do professor que atua na Educação Básica. Isto porque, defende que a constante formação viabiliza a apropriação de novos conhecimentos teóricos e metodologias que refletirão na melhoria da prática docente. Ela adotou a pesquisa bibliográfica e se valeu de Bourdieu (1991), Marcelo (2009), Tozetto (2010), entre outros autores que discutem o tema em questão.

Assim, Ana de Arruda Pinheiro, traz para a discussão que a formação continuada insere o professor em uma dinâmica reflexiva com a “compreensão de que a formação ultrapassa a profissão de ser professor, uma vez que os saberes intrínsecos são adquiridos em diferentes momentos, sendo imprescindível considerar a sua constituição como pessoa.” Com isso, traz em seus apontamentos conclusivos que a formação continuada se dá em um processo contínuo, em que o ritmo e o sentido variam. Isso porque, os professores são singulares e estão imersos em práticas sociais, culturais e políticas em um contexto de experiências diversas, coletivas e individuais. Ressalta a necessidade da formação continuada como meio que poderá auxiliar o professor no processo de elaboração de planejamentos de aulas com o objetivo de mediação de conteúdos de maneira dinâmica e produtiva.

O texto denominado “Reflexões teóricas sobre a formação docente: aspectos pertinentes sobre a formação inicial e continuada”, de autoria de Elaine Cristina Mateus Novacowski e Odair Alves Vieira, foi escrito com o objetivo de compartilhar e discutir aspectos pertinentes à formação docente. Os autores discutiram a constituição da identidade docente, a formação como profissão e reflexões teóricas sobre a formação inicial e a formação continuada. Caracterizada na base qualitativa, a pesquisa de cunho bibliográfico, emanou reflexões pautadas nas contribuições de autores como: Alarcão (1996, 2005); André (2016); Freire (1996); Garcia (1999); Gatti (2016); Imbernóm (2006, 2011); Nóvoa (1992, 2003, 2017); Pimenta (2005, 2009, 2012); Romanowski (2012); Tardif (2000, 2013, 2014); entre outros.

Afirmaram que os estudos compartilhados na disciplina Formação de Professores: concepções e práticas do PPGEdu/UNEMAT/Cáceres, trouxeram reflexões teóricas iniciais sobre a temática em que os autores contextualizaram a formação docente enquanto profissão que precisa seguir princípios profissionais para firmar e afirmar-se, como o desenvolvimento de capacidades reflexivas coletivas, para lidar com as mudanças contínuas que a profissão docente requer, construindo e valorizando a autonomia docente.

Erasmo Soares Santos, escreveu o texto “A gestão escolar e sua relação com os resultados do Ideb: uma comparação de desempenhos”. O manuscrito traz o resultado de uma pesquisa realizada com o “objetivo de investigar as práticas pedagógicas, bem como a gestão escolar, referentes ao desempenho do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) das turmas de 5º Ano de duas Instituições da rede pública Municipal dos municípios de Lucas do Rio Verde - MT e Juruti- PA.” (Escolas do campo). A pesquisa de investigação quali-quantitativa, com estudo exploratório-descritivo, levantou bases bibliográficas e documentais. O trabalho incluiu o estudo das bases legais, do Projeto Político Pedagógico (PPP) das Instituições pesquisadas, como também entrevistas realizadas junto ao corpo docente e Equipes Gestoras das duas Instituições.

O autor afirmou que analisou resultados publicados nos anos de 2015 e 2017 do Ided - Prova Brasil, e identificou elementos que justificaram “a incompatibilidade dos resultados obtidos” em relação ao desempenho dos alunos de ambas as escolas pesquisadas. Apontou que fatores como formação adequada e experiência docente, tempo para estudar e planejar, acrescidos das peculiaridades das escolas do campo, que incluiu a sua infraestrutura, impactaram nos resultados da Prova Brasil das referidas instituições, nos respectivos anos.

Jennifer Boscato Gomes e Loriége Pessoa Bitencout, com o manuscrito “Os currículos que formam professores de matemática: um estudo a partir da produção científica na pós-graduação Stricto Sensu”, apresentaram discussões no âmbito da formação de professores, que segundo as autoras, “vêm circunscrevendo um cenário de disputas externas e internas, com os orientativos da Resolução do CNE/CP nº 02 de 2019, e provocam mudanças nos currículos das licenciaturas.”  O artigo, elaborado com base em três dissertações, selecionadas em um balanço de produção no Banco de Teses e Dissertações da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pretendia compreender “como os autores destas dissertações vêm discutindo os currículos que formam professores de Matemática?”

As autoras ressaltaram que dentre as principais características encontradas nas dissertações estão às inconsistências nos Projetos Pedagógicos dos Cursos (PPC), de Matemática, “no que se refere ao perfil do egresso e às concepções de currículo presentes nesses documentos.” Levantaram que “os cursos de Licenciatura em Matemática possuem um currículo que privilegia os conhecimentos específicos da matemática.” Com isso, a visão de currículo alicerçado “no modelo 3+1, com traços de perspectivas tradicionais que fragmentam a formação profissional”, permanece.

O ensaio teórico “Os impactos das reformas neoliberais na ordem democrática e na educação”,  elaborado por Lígia Iracema Christofolo de Mello, Marilda de Oliveira Costa,  Leonardo Almeida da Silva e Mônica de Almeida Ribas, teve como objetivo ressaltar a atual crise da democracia e as implicações daí decorrentes para os direitos sociais e os direitos humanos conquistados por meio de muitas lutas travadas no decorrer da história, dentre estes, o direito de acesso, permanência e conclusão da Educação Básica. Pautados nas leituras de: Boron (2003); Souza (2017); Miguel e Vitullo (2020); Santos (2016), Afonso (2020) e Lima (2005), dentre outros autores, afirmaram que a manutenção dos direitos democráticos implicam em resistências e lutas.

As autoras e autor ressaltaram a necessidade de esperançar, apostar e acreditar que as reformas neoliberais e gerencialistas poderão ser amenizadas com o fortalecimento dos “movimentos contra hegemônicos que insistentemente se organizam para lutar contra todas as formas de exclusão e de dominação, bem como de fazer valer os direitos legalmente assegurados, como o de acesso, permanência e conclusão de pelo menos a Educação Básica.”

O ensaio teórico denominado “Racismo estrutural étnico e mulheres condenadas no Brasil”, foi escrito por Lígia Iracema Christofolo de Mello e Mônica de Almeida Ribas a partir de uma busca realizada no google acadêmico, com a frase: “Racismo estrutural e mulheres condenadas.” As autoras levantaram dezesseis textos que incluíram artigos, teses, dissertações e monografia encontrados nas 10 primeiras páginas de buscas no referido site, realizada entre os dias 29 e 30 de novembro de 2021. Destes, escolheram oito que abordaram, de uma forma mais direta, a correlação entre racismo estrutural, crimes e condenação.

A partir das leituras dos textos selecionados, a análise ancorou-se no objetivo de reeditar que a maioria das mulheres condenadas no Brasil são negras, com vistas a estabelecer uma interrelação à sua condição étnica à condição de condenada. Assim, foram movidas pelo questionamento de compreender “como a correlação entre racismo estrutural, crimes e condenação se manifestam no interior dos presídios e cadeias femininos junto às mulheres negras.”  Um aspecto destacado pelas autoras é “que a maioria dos artigos em suas introduções destacam o atual sistema capitalista com suas divisões de classes e exclusões sociais como responsável por todas as formas de segregações existentes.” Concluíram que “o racismo estrutural se manifesta de muitas formas no interior dos presídios femininos,” e afeta diretamente e intensamente “as mulheres negras e tiram delas o direito à vida com dignidade humana e justiça social, cultural, étnica, política.”

Isso posto, entregamos aos leitores este dossiê e esperamos que as leituras dos textos que o compõem ampliem os conhecimentos de cada leitor com possibilidades de reflexões que emanem sempre boas energias e o desejo de superações que impactem as dimensões da formação de professores na atual ordem democrática.

 

Ângela Rita Christofolo de Mello.

Referências

ALARCÃO, Isabel (Coord.). Formação reflexiva de professores: estratégias de supervisão. Porto: Porto Editora, 1996.

ALARCÃO, Isabel. Escola reflexiva e a nova racionalidade. Porto Alegre: Artmed Editora, 2005.

ANDRÉ, Marli. Formar o professor pesquisador para um novo desenvolvimento profissional. In: ANDRÉ, Marli. Práticas inovadoras na formação de professores. Campinas, SP: Papirus, 2016.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GARCIA, Marcelo. Formação de professores: para uma mudança educativa. Porto- Portugal: Porto editora, 1999.

GIROUX, H. Os professores como intelectuais: rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 1997.

IMBERNÓN, F. Formação docente e profissional: formar-se para a mudança e a incerteza. São Paulo:

Cortez, 2001.

NÓVOA, A. (Coord.). Os professores e a sua formação. Lisboa: Dom Quixote,1995.

TARDIFF, Maurice. Saberes Docentes e Formação Profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.

Publicado

29/07/2022

Como Citar

MELLO, Ângela R. C. de . (2022). Apresentação do Dossiê Temático: Dimensões da Formação de Professores Impactadas pela atual Ordem Democrática. Revista De Educação Do Vale Do Arinos - RELVA, 9(1), 1–10. https://doi.org/10.30681/relva.v9i1.6435

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