QUILOMBAGEM E GESTÃO SOCIAL NA AMAZÔNIA:  RESISTÊNCIA TERRITORIAL E PERSPECTIVAS PARA MATRIZES  ENERGÉTICAS SUSTENTÁVEIS

Autores

  • Paulo de Deus Nunes dos Santos PPGSA-UFPA
  • Crystiane Amaral Coutinho PPAC-UFC
  • Dra. Voyner Ravena Cañete PPGSA-UFPA
  • Dra. Maria Amoras Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGSS) da Universidade Federal do Pará – UFPA
  • Dra. Marinalva Cardoso Maciel PPGAD-UFPA

DOI:

https://doi.org/10.30681/rbegdr.v7i3.14541

Palavras-chave:

Quilombagem, gestão social, governança; sustentabilidade energética

Resumo

Este artigo traz reflexões sobre como      visou responder de que forma a quilombagem e a gestão social influenciam a resistência territorial das comunidades quilombolas amazônicas diante da expansão de empreendimentos de energia renovável.      O objetivo geral foi analisar como a quilombagem e a gestão social contribuem para a resistência territorial e a sustentabilidade das comunidades quilombolas na Amazônia frente à implementação de matrizes energéticas renováveis. Com a abordagem qualitativa, utilizando métodos como entrevistas, observação participante e revisão bibliográfica, o texto apresenta reflexões e análises sobre os relatos de quatro lideranças de quatro Comunidades Quilombolas, do município de Acará, Estado do Pará. Os resultados revelam que as lideranças quilombolas acessadas      constroem formas de organização coletiva baseadas na solidariedade, na preservação cultural e na autogestão, confirmando a quilombagem como processo de resistência ativa e de governança comunitária. Também foi identificado que a ausência de mecanismos participativos nas práticas empresariais compromete a legitimidade dos projetos energéticos, reproduzindo exclusão e insegurança. Em contrapartida, a gestão social quilombola emerge como alternativa para a defesa territorial e proposição de modelos de desenvolvimento que conciliam      sustentabilidade ambiental, justiça social e valorização cultural. O estudo conclui que os quilombos não apenas resistem às pressões externas, mas se afirmam como atores políticos capazes de propor caminhos para uma transição energética justa e inclusiva, incorporando saberes tradicionais e práticas comunitárias na formulação de políticas públicas.  

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Biografia do Autor

  • Paulo de Deus Nunes dos Santos, PPGSA-UFPA

    Brasileiro, homem negro, pertencente a uma comunidade quilombola e ribeirinha. Originário da Comunidade Remanescentes de Quilombola de Monte Sião (AMARQUALTA), situada na zona rural do município de Acará, no estado do Pará. Durante a infância, foi doado para outras famílias com a finalidade de estudar. Formou-se em Sociologia, completando a graduação em Ciências Sociais em 2005 pelo Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal de Roraima (UFRR). De 2009 a 2012, exerceu o cargo de vereador em Acará-PA, destacando-se pelo seu comprometimento com os movimentos sociais; ocupou a posição de 2 secretário da Mesa Diretora da Câmara Municipal por dois mandatos, liderou Comissão de Constituição, Justiça e Legislação e presidiu Comissões Parlamentares de Inquérito. Como um dos fundadores da Associação de Moradores e Agricultores Remanescentes Quilombolas do Alto Acará (AMARQUALTA), desempenhou diversas funções, incluindo Presidente, Vice-Presidente, Coordenador de Relações Públicas e Presidente do Conselho Fiscal, entre 2009 e 2015 e de 2017 a 2023. Sua atuação na associação tem sido vital para fomentar o diálogo entre instituições públicas, organizações e a comunidade, direcionando esforços para abordar as questões relativas à mitigação e adaptação às mudanças climáticas no Pará. Além disso, de 2015 a 2016, atuou como Diretor do Departamento de Promoção da Igualdade Racial no Município de Acará-PA, fazendo contribuições importantes para a defesa dos direitos e da igualdade racial na região da Amazônia paraense.

  • Crystiane Amaral Coutinho, PPAC-UFC

    Mulher negra quilombola e ribeirinha, mãe, filha, amiga e ativista comprometida com a luta pela igualdade de gênero e pelos direitos fundamentais, essenciais ao progresso humano — especialmente em comunidades historicamente marginalizadas.
    Formação e trajetória acadêmica:
    •Doutoranda em Administração e Controladoria no PPAC/UFC.
    •Mestra em Administração pelo PPGAD/UFPA.
    •Bacharela em Administração pela UFPA.
    Missão: valorizar a cultura quilombola, fortalecer redes de apoio a meninas e mulheres, e afro-empoderar futuras gerações, construindo um legado que reflita a luta, a resistência e a ancestralidade.

  • Dra. Voyner Ravena Cañete, PPGSA-UFPA

    Professora Associada IV da Universidade Federal do Pará (UFPA), vinculada ao Núcleo de Ecologia Aquática e Pesca da Amazônia (NEAP), possui Graduação em História, Mestrado em Antropologia Social e Doutorado em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido, todos pela UFPA. Atua como docente em programas de pós-graduação nas áreas de Ecologia Aquática e Pesca da Amazônia, Sociologia e Antropologia, e na Rede Nacional para o Ensino das Ciências Ambientais, com destacada atuação em cargos de coordenação acadêmica. Desde 1998, desenvolve projetos de pesquisa e extensão voltados às questões socioambientais de povos e comunidades tradicionais amazônicas, com ênfase no campesinato, populações ribeirinhas, pesqueiras e, mais recentemente, comunidades quilombolas. Atualmente, é coordenadora do Curso de Especialização em Cultura Oceânica e Sustentabilidade no NEAP.

  • Dra. Maria Amoras, Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGSS) da Universidade Federal do Pará – UFPA

    MARIA AMORAS (Cit.): Amazônida, Antropóloga com formação inicial em Ciências Sociais (bacharelado e licenciatura) pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Pará (IFCH/UFPA); Mestrado em Serviço Social e Políticas Públicas (PPGSS-UFPA); Doutorado em Antropologia pelo PPGSA/UFPA; Sócia Efetiva da Associação Brasileira de Antropologia (ABA); Professora do Curso de Graduação e Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Pará (PPGSS-UFPA). Líder do grupo de pesquisas INTERFACES: INTERSECÇÕES ENTRE RAÇA/ETNIA, GÊNERO, CORPO E TERRITÓRIO NA (RE)PRODUÇÃO DAS DIFERENÇAS E DESIGUALDADES NA AMAZÔNIA, na linha de pesquisa: Relações étnico-raciais e corpos de resistências na Amazônia - Investiga a (re)produção de diferenças e desigualdades na Amazônia sob as intersecções de raça/etnia, gênero/sexo, geração/idade e classe. Situa pesquisas colaborativas com a população negra e povos tradicionais, mirando corpos de resistências como enfrentamento ao Estado e aos múltiplos sistemas de dominação, para problematizar políticas públicas e sociais. Sob o recorte geracional e suas intersecções, visa também, estudos voltados às infâncias e às juventudes de territórios tradicionais e periféricos na Amazônia. E, ainda, concentra pesquisas sobre: relações étnico-raciais e educação, política de ação afirmativa no ensino superior para a população negra, indígena e demais povos tradicionais. Coordenadora o Programa de acompanhamento da aprendizagem de indígenas e quilombolas estudantes da UFPA/ IQ - Conhecimento e Resistência. Membra da Rede de pesquisadores AMAZONICIDADES - obsrvatório das Cidades, Vilas e Territórios Amazônicos. Email: samoras@ufpa.br

  • Dra. Marinalva Cardoso Maciel, PPGAD-UFPA

    Possui graduação em Estatística pela Universidade Federal do Pará (1989), graduação em Matemática pela Universidade Federal do Pará (1989), mestrado em Estatística pela Universidade Federal de Pernambuco (2001) e doutorado em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco (2008). Atualmente é professora associada da Universidade Federal do Pará. Tem experiência na área de Probabilidade e Estatística, com ênfase em Estatística Aplicada e Ciência de Dados, atuando principalmente nos seguintes temas: análise multivariada de dados de saúde, agroflorestais e de desenvolvimento sustentável, modelagem estatística, econometria, políticas públicas e indicadores sociais utilizando técnicas estatísticas e inteligência computacional. 

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Publicado

2026-01-12

Edição

Seção

Artigos

Como Citar

QUILOMBAGEM E GESTÃO SOCIAL NA AMAZÔNIA:  RESISTÊNCIA TERRITORIAL E PERSPECTIVAS PARA MATRIZES  ENERGÉTICAS SUSTENTÁVEIS. (2026). Revista Brasileira De Estudos De Gestão E Desenvolvimento Regional, 7(3), 112-128. https://doi.org/10.30681/rbegdr.v7i3.14541