DESCOLONIZANDO O PENSAMENTO: A VOZ DA FLORESTA E O NAVIO NEGREIRO NO CONTEXTO CAPITALOCENO

Autores

  • Claudia Miranda da Silva Moura Franco Universidade Estadual Paulista
  • Marilia Gabriela Barros de Moraes Universidade de Brasilia

DOI:

https://doi.org/10.30681/rln.v19i57.14951

Palavras-chave:

Literatura indígena, Decolonialidade, Capitaloceno, A queda do céu

Resumo

Este artigo discute as relações entre colonialidade, exploração da natureza e produção de conhecimento a partir do diálogo entre a metáfora do porão do navio negreiro, formulada por Malcolm Ferdinand, e a voz da floresta presente na obra A queda do céu: palavras de um xamã yanomami (2015), de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Parte-se da noção de capitaloceno, proposta por Donna Haraway (2016), para compreender a crise ecológica contemporânea não apenas como resultado da ação humana em geral, mas como consequência de um modelo civilizatório marcado pela lógica colonial e pela expansão do capitalismo. Nesse contexto, a narrativa de Kopenawa emerge como um contradiscurso decolonial que tensiona as epistemologias ocidentais e denuncia a destruição da floresta e dos modos de vida indígenas. A análise mobiliza aportes teóricos da crítica decolonial e dos estudos sobre literatura indígena, articulando autores como Quijano (2005), Mignolo (2015) e Krenak (2019). Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa bibliográfica e interpretativa que busca compreender como a narrativa xamânica articula cosmologia, memória e crítica política ao sistema capitalista. Argumenta-se que a obra de Kopenawa não se limita a uma denúncia ambiental, mas apresenta uma cosmologia alternativa que reposiciona a relação entre humanos, natureza e espiritualidade. Assim, a voz da floresta se configura como um gesto de resistência epistemológica que desafia as narrativas hegemônicas da modernidade e propõe outras formas de habitar o mundo.

Downloads

Os dados de download ainda não estão disponíveis.

Biografia do Autor

  • Claudia Miranda da Silva Moura Franco, Universidade Estadual Paulista

    Doutora em Teoria e Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista (UNESP - IBILCE. São José do Rio Preto SP). Mestra em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Licenciada em Letras (Português/Inglês) pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). Professora da Faculdade Fastech nas disciplinas de TCC1, Comunicação e Expressão, Investigação Científica, Narrativas Seriadas e Extensão. Pesquisadora das representações da mulher, violência, marginalidade, política e memória na literatura. É membro dos seguintes grupos de pesquisa: FANTALOGIA Grupo de Estudos e Pesquisa em Narrativas Fantásticas (FASTECH); Núcleo de Estudos sobre Africanidades, Diáspora e População Negra (NEAB Encrespar/UNEMAT); Grupo de Estudos e Pesquisa em Mídia e Comunicação sobre a Amazônia (GEMCA/FASTECH); Representações da Política e do Trabalho na Literatura Brasileira Moderna e Contemporânea (UNEMAT); Poesia Brasileira de Negros e seus Descendentes (UNESP); Grupo de Estudos e Pesquisas em Literatura (GECOLIT).Membro da AJEB Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (Seção Mato Grosso); do Coletivo Negras Mato-grossenses; da Rede MT Ubuntu Rede Mato-Grossense de Formação Continuada para a Educação das Relações Étnico-Raciais; e membro correspondente da Academia Luverdense de Letras (Lucas do Rio Verde MT). Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), no período de 2022.

  • Marilia Gabriela Barros de Moraes, Universidade de Brasilia

    Doutoranda em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB), sob orientação do Prof. Dr. Pedro Mandagará. É mestre em Letras pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), Campus de Sinop. Desenvolve pesquisas nas áreas de literatura indígena, ecocrítica, discursos ecológicos e decolonialidade, com ênfase na obra A Queda do Céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Seus interesses de pesquisa concentram-se nas relações entre literatura, oralidade, cosmologias indígenas e crítica ambiental, buscando compreender as contribuições dos saberes originários para os debates contemporâneos sobre cultura, natureza e colonialidade.

Referências

BARTOLOMÉ, Miguel Alberto; BARABAS, Alicia M. Los sueños en la tradición indígena mesoamericana. México: Instituto Nacional de Antropología e Historia, 2013.

CASTRO, Eduardo Viveiros de. Perspectivismo e multinaturalismo na América indígena. In: CASTRO, Eduardo Viveiros de. A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2002.

FERDINAD, Malcom. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. Tradução Letícia Mei. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

HARAWAY, Donna. Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno, Chthuluceno: fazendo parentes. Clima Com Cultura Científica: pesquisa, jornalismo e arte. Ano 3 - N.5, 2016.

KOPENAWA, Davi. ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 14. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

MIGNOLO, Walter D. A colonialidade de cabo a rabo: o hemisfério ocidental no horizonte conceitual da modernidade. Buenos Aires: Ediciones del Signo, 2015.

ORLANDI, Eni Puccinelli. Discurso e leitura. São Paulo: Cortez, 1990.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005.

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2009.

SOUZA, Lynn Mario Trindade Menezes de. Povos indígenas e epistemologias outras. Brasília: Editora UnB, 2019.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

Downloads

Publicado

20/09/2026

Edição

Seção

Dossiê "Vozes identitárias da literatura indígena brasileira contemporânea: do registro etnográfico à criação literária"

Como Citar

Franco, C. M. da S. M., & Barros de Moraes, M. G. (2026). DESCOLONIZANDO O PENSAMENTO: A VOZ DA FLORESTA E O NAVIO NEGREIRO NO CONTEXTO CAPITALOCENO. Revista De Letras Norte@mentos, 19(57), 168-183. https://doi.org/10.30681/rln.v19i57.14951