DA ESCRITA PARTILHADA À VOZ AUTORAL: LITERATURA INDÍGENA FEMININA, REEXISTÊNCIA E REVITALIZAÇÃO IDENTITÁRIA
DOI:
https://doi.org/10.30681/rln.v19i57.14929Palavras-chave:
Literatura indígena, mulheres, criação coletiva, Mulherio das Letras Indígenas.Resumo
Este artigo analisa a constituição da literatura indígena feminina brasileira contemporânea, investigando o deslocamento histórico do registro etnográfico e das experiências pioneiras de criação coletiva, como os “livros da floresta”, até a consolidação de práticas autorais soberanas no campo literário. Baseado em uma pesquisa de mestrado que investigou o coletivo Mulherio das Letras Indígenas como espaço estratégico de reexistência e produção de novos sentidos literários, destacamos o protagonismo das mulheres na construção de uma voz-praxis literária que articula escrita e corpo como extensões diretas do território sagrado. O texto discute essa produção literária indígena feminina como uma prática estética, política e espiritual, na qual palavra, território e memória ancestral são dimensões indissociáveis de uma mesma existência, Nesse cenário, a análise de poéticas como as de Bea Guarani e Benilda Kadiwéu evidencia como a autoria feminina transita da representação externa para a autorreferencialidade, denunciando as violências coloniais, patriarcais e o racismo estrutural, ao mesmo tempo, em que reafirma identidades coletivas e saberes tradicionais. Argumenta-se que tais produções não apenas tensionam o cânone ocidental e as hierarquias acadêmicas, mas instituem um arcabouço teórico fundamentado em epistemologias próprias, em que o ato de narrar funciona como ferramenta de retomada política, justiça e cura. Ao transformar a memória em potência estética e ética, a literatura indígena feminina redefine os parâmetros de autoria no Brasil, consolidando-se como um arquivo vivo de resistência e continuidade histórica.
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