“MINHA AVÓ FOI PEGA NO LAÇO”: MEMÓRIA, VIOLÊNCIA E RESISTÊNCIA FEMININA EM DE ALMAS E ÁGUAS KUNHÃS (2023) DE MÁRCIA KAMBEBA
DOI:
https://doi.org/10.30681/rln.v19i57.14936Keywords:
Literatura indígena, Memória ancestral, Violência colonialAbstract
O presente artigo analisa o ensaio Minha avó foi pega no laço, da obra De almas e águas kunhãs (2023), de Márcia Wayna Kambeba, com o propósito de evidenciar como a autora revisita a memória ancestral para denunciar a violência colonial que marcou a formação do Brasil, sobretudo no que se refere ao corpo das mulheres indígenas. Com abordagem qualitativa e bibliográfica, o estudo articula o ensaio ao poema Índia, eu não sou, da mesma autora, e dialoga com reflexões de intelectuais indígenas contemporâneos, como Daniel Munduruku (2017) e Mirna Anaquiri (2018), os quais questionam a naturalização da expressão “pega no laço” como marcador identitário. A análise demonstra que Kambeba utiliza tanto a escrita ensaística quanto a poética como formas de contraescrita, desestabilizando narrativas hegemônicas que romantizaram a miscigenação e ocultaram o estupro colonial como elemento estruturante da nação. Ao recuperar histórias de suas ancestrais e reinterpretar a expressão popular a partir da memória corporal e territorial, a autora reposiciona a violência não como destino inevitável, mas como ponto de partida para a resistência, a preservação cultural e a afirmação identitária. Os resultados indicam que a literatura indígena de autoria feminina funciona como espaço de denúncia, cura e reexistência, com o objetivo de devolver dignidade às mulheres violentadas e reafirmar seu protagonismo histórico. Conclui-se que Kambeba transforma a barbárie colonial em força estética e política, contribuindo para uma narrativa decolonial que enfrenta o apagamento histórico e reinscreve as mulheres indígenas no centro da memória nacional.
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